Slow living em Portugal: duas irmãs estão a recuperar o modo de vida alentejano, uma casa de cada vez

Descobre o slow living na costa alentejana: onde ficar, o que fazer e como casas de hóspedes como a Manas Slowliving estão a reinventar a forma de viajar, para lá dos hotéis tradicionais.

Autora Lucianna Chixaro Ramos

por Lucianna Chixaro Ramos

8 de abril de 2026

Inês e Rita na Casa de Sines da Manas Slowliving — para retiros criativos, residências e equipas de empresas
Inês e Rita na Casa de Sines da Manas Slowliving — para retiros criativos, residências e equipas de empresas.

Na costa alentejana, onde os sobreiros contrastam com as arribas secas junto ao mar, duas irmãs estão a dar nova vida ao turismo local em Sines, o destino de férias da sua infância.

Criar uma casa de hóspedes dedicada ao slow living nem sempre esteve nos planos da Inês. Mas na primavera de 2022, um esgotamento pós-pandemia levou-a a deixar o emprego de analista de dados. Foi aí que decidiu voltar às suas raízes alentejanas.

De regresso a Sines, uma pequena cidade conhecida pelas suas praias, a Inês redescobriu o amor pela casa de férias dos avós. A casa fica a apenas umas centenas de metros da Praia Vasco da Gama, onde os pescadores ainda recolhem os barcos antes do amanhecer.

A decisão de recuperar a casa de férias da infância tornou-se então óbvia. Pouco tempo depois, a Inês convenceu a irmã, a Rita, gestora de projetos, de que recuperar a casa não era só um projeto de paixão. Podia ser um negócio viável.

Tirando os anos de pandemia, entre 2020 e 2021, o turismo em Portugal tem crescido de forma constante desde meados dos anos 90. Em 2025, Portugal recebeu 32,5 milhões de visitantes, e o Alentejo foi a região onde o turismo mais cresceu, medido em dormidas.

Esse potencial já era evidente na primavera de 2022, quando a Inês se comprometeu a transformar a casa de Sines naquilo que viria a ser a Manas Slowliving. Desde então, abriu também a Casa de Santiago a hóspedes, uma casa de família mais pequena na vizinha Santiago do Cacém.

Reconstruir a história do Alentejo com um novo olhar sobre o slow living

Fotografia antiga da Casa de Sines da Manas Slowliving, antes de se tornar um espaço de retiros em Portugal

Desde o início, o projeto teve um peso maior do que uma simples recuperação de uma casa. A casa de Sines fazia parte da história da família. E representa também um modo de vida que está a desaparecer depressa numa cultura cada vez mais digital.

A Inês, que ficou com a maior parte das obras, viu nisto uma oportunidade de reconstruir o espaço de forma a ajudar os hóspedes a viver a um ritmo mais lento. Ainda assim, preservar a história e as tradições da casa e da região foi sempre uma prioridade.

Uma casa de férias de infância, reimaginada

Muito antes de fazer parte de um conceito de hospitalidade, a casa de Sines era onde a Inês e a Rita passavam os verões da infância a jogar às cartas com a tia, na varanda virada para a Praia Vasco da Gama. Mais tarde, já adolescentes, começaram a fazer surf.

Foi construída nos anos 50 pelos avós das irmãs, com a ajuda do bisavô, que era pintor e ajudou a desenhar a planta. Muitos dos seus quadros continuam expostos na casa, um pormenor que encanta muitos hóspedes.

Depois de construída, a Casa de Sines tornou-se o porto de abrigo sazonal da família, uma pausa no dia a dia em Santiago do Cacém, ali perto.

Essa intenção original moldou a forma como a Inês reimaginou o espaço e o tipo de estadias que queria criar para os hóspedes. Foi esta filosofia que a levou a manter muitos dos pormenores originais, incluindo o chão de tacos. Também restaurou ela própria grande parte do mobiliário original em madeira maciça.

Repensar o turismo preservando o modo de vida alentejano

A Manas Slowliving está a contrariar a ideia de que preservação e turismo não podem andar juntos. Ainda assim, o crescimento do turismo no Alentejo traz desafios.

O problema que as casas de hóspedes dedicadas ao slow living e os projetos de turismo responsável estão a tentar resolver é essencial: como receber visitantes sem abandonar a cultura de quem aqui vive há gerações?

A crescente necessidade de slow living em Portugal (e não só)

Depois de deixar para trás o esgotamento do emprego numa grande empresa e anos de viagens, a Inês percebeu que a sua experiência não era caso único. O burnout estava a tornar-se uma preocupação séria entre adultos em idade ativa. Aliás, segundo um inquérito global de 2023 do think tank norte-americano Future Forum, 42% dos trabalhadores disseram sentir-se em burnout.

A Inês percebeu que recuperar do burnout passava por respeitar o ritmo natural da vida. Ou seja, acordar sem despertador, cozinhar com ingredientes frescos e locais e arranjar tempo para estar com os outros e para mexer o corpo.

Tornar-se um espaço de retiros no Alentejo

No ano passado, o Sanana Retreat escolheu a Casa de Sines da Manas Slowliving para acolher o seu retiro pop-up de surfskate. O Sanana reuniu seis skaters em Sines para uma semana de workshops e surf.

«Foi tão bom ver toda a gente a criar ligações e a tornar-se um grupo tão unido», conta a Inês, sobre a experiência de receber o Sanana. «Havia mesmo uma energia muito boa.»

Mulheres a andar de skate no retiro de surfskate Sanana, em Sines

O sucesso do retiro de surfskate levou a Manas a repensar o que oferecia. Até então, a casa era dedicada sobretudo a nómadas digitais à procura de uma experiência de coliving em comunidade. Mas, depois do Sanana, a Inês percebeu o potencial que a Manas Slowliving tinha para receber mais grupos e retiros alinhados com a sua filosofia de slow living.

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Inês, fundadora da Manas Slowliving, na oficina em Santiago do Cacém, Alentejo

A atenção às ligações humanas que a Manas Slowliving oferece vai muito além da experiência dos hóspedes e chega à própria recuperação das casas. O projeto continua muito ligado à comunidade desta zona do Alentejo Litoral, da qual a família da Inês faz parte há gerações.

Durante as obras da Casa de Sines, a Inês conheceu um carpinteiro reformado, o Senhor Fernando. A oficina dele fica perto da Casa de Santiago. Ela começou a partilhar ideias de móveis que queria construir ou restaurar, e as conversas depressa se transformaram numa espécie de mentoria. Isto deu à Inês a oportunidade de aprender um ofício que está a desaparecer.

«O Senhor Fernando deixa-me estar na oficina dele o dia inteiro e interrompe sempre o que está a fazer para me ajudar num projeto ou tirar as minhas dúvidas», conta a Inês.

«As pessoas aqui no Alentejo são mesmo assim», continua. «Não é preciso ter vergonha de pedir ajuda.»

Por dentro da Manas Slowliving: uma estadia diferente no Alentejo

A Manas Slowliving faz parte de uma tendência emergente no alojamento: estadias centradas na comunidade, que juntam a flexibilidade do alojamento local a um toque muito pessoal.

As duas casas, uma mesmo a norte da Praia Vasco da Gama, em Sines, e a outra em Santiago do Cacém, oferecem aos hóspedes duas experiências bem diferentes.

A Casa de Sines: um refúgio tradicional à beira-mar, renovado

Vista do mar a partir da varanda da Casa de Sines da Manas Slowliving

Debruçada sobre o Atlântico e a poucos passos da praia, a Casa de Sines foi pensada como um lugar para voltar a um ritmo mais lento.

Apesar de os sete quartos terem espaço para grupos de até catorze pessoas, a planta da casa gira à volta do estar juntos. Uma sala comum com uma grande lareira de tijolo é o coração da casa. Ao lado, uma varanda ampla abre-se sobre o mar.

O contraste entre o antigo e o novo está presente em toda a casa. Na cozinha, um forno a lenha tradicional convive com um fogão a gás moderno. Um espaço de coworking atual, com postos de trabalho feitos à medida, partilha as paredes com uma coleção de paisagens pintadas pelo bisavô da Inês.

A Casa de Sines está atualmente disponível para arrendamento completo a equipas de empresas e retiros criativos, e quer receber residentes através de um programa de residências em crescimento.

A Casa de Santiago do Cacém: um refúgio acolhedor nas colinas

Vista das colinas a partir da varanda da Casa de Santiago da Manas Slowliving, em Santiago do Cacém, Alentejo

Mais para o interior, em Santiago do Cacém, a Casa de Santiago da Manas tira o melhor partido da simplicidade e do engenho. Esta casa mais pequena foi pensada para receber até quatro pessoas e, tal como em Sines, a Inês restaurou à mão grande parte do mobiliário.

Por perto, os hóspedes encontram a generosidade típica do Alentejo e um número surpreendente de monumentos históricos. As Ruínas de Miróbriga, da época romana, o Moinho da Quintinha e o Castelo de Santiago do Cacém ficam todos a uma curta caminhada.

A diferença entre estadias slow living e hotéis tradicionais

Os hotéis tradicionais são pensados para a eficiência. Os quartos seguem as mesmas plantas e os serviços são padronizados. O check-in, a limpeza dos quartos e as refeições são praticamente iguais, seja qual for o sítio.

É um modelo fiável, mas que tem perdido popularidade de forma acentuada nos últimos anos.

Cada vez mais viajantes escolhem pequenos alojamentos independentes e casas de hóspedes, e as expectativas estão a mudar. O que desperta hoje o interesse de quem viaja já não é o serviço de luvas brancas. Experiências autênticas, como workshops de skate, aulas de surf e outras atividades em grupo, fazem toda a diferença.

Tanto em Sines como em Santiago do Cacém, a Manas Slowliving está a apostar com entusiasmo neste nicho.

As estadias slow living em Portugal oferecem uma autenticidade que os hotéis não conseguem

Por todo o país, cada vez mais alojamentos estão a trocar a hospitalidade tradicional por experiências com mais ligação à cultura local. Os viajantes estão mais conscientes do impacto do turismo nas regiões que os recebem e fazem escolhas mais conscientes quando reservam.

Alojamentos independentes que põem a história cultural, as experiências personalizadas e o turismo responsável no centro oferecem uma autenticidade que a maioria dos hotéis simplesmente não consegue dar.

Para a nova geração de viajantes e de organizadores de retiros, as experiências únicas que casas como a Manas Slowliving proporcionam são insubstituíveis.

Três mulheres à conversa na casa da Manas Slowliving junto à praia, em Sines

Como é um domingo tranquilo na Manas Slowliving

Mulher a fazer café na bancada do pequeno-almoço da casa da Manas Slowliving em Sines, na costa alentejana

Os domingos na Manas Slowliving começam devagar. Ao pequeno-almoço há pão alentejano fresco, que pode vir acompanhado de outros pães tradicionais e de doces típicos da região. Sem pressa, os hóspedes ficam à mesa na conversa, sem olhar para o relógio.

A meio da manhã, muitos seguem para uma das muitas praias por perto, para surfar ou apanhar sol. Com a praia ali ao lado e uma cozinha completa em casa, há sempre uma refeição fresca à mão.

Quando o sol começa a pôr-se e os surfistas e banhistas voltam da praia cheios de fome, a Inês tem todo o gosto em recomendar os seus restaurantes locais preferidos. Sítios como o Arte&Sal são favoritos da família há décadas.

Depois, é hora de descansar. Depois de um dia inteiro de sol e surf, os hóspedes podem servir-se de um copo de vinho da região e ver um filme no projetor, ou simplesmente aproveitar a brisa fresca e uma boa conversa na varanda.

O que vem a seguir para a Manas Slowliving?

Depois de dois primeiros anos de sucesso, a Manas Slowliving está a evoluir. O que começou como uma única casa recuperada em Sines passou a ser duas, com a chegada da Casa de Santiago. E pode haver uma terceira a caminho.

A Inês quer agora ligar-se a mais organizadores de retiros e artistas que possam usar a casa como espaço criativo, tal como o bisavô fez há mais de 70 anos.

Uma futura oficina para artistas e makers

Uma das formas que a Inês está a planear para trazer mais criatividade ao espaço é construir uma oficina. Será parecida com a que partilha com o seu mentor de carpintaria, o Senhor Fernando, e vai ter o equipamento e as ferramentas necessárias para carpintaria e outras disciplinas artísticas.

Também está em curso a recuperação de uma terceira casa de família em Santiago do Cacém. Quando estiver concluída, vai permitir receber grupos maiores também em Santiago, e não só em Sines.

Mas, por agora, quem visita o Alentejo pode instalar-se e aproveitar a vida devagar nas duas casas da Manas Slowliving. Pressas não são permitidas.

Apetece-te abrandar no Alentejo? Vem provar a vida devagar.

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Sobre a autora

Autora Lucianna Chixaro Ramos

Lucianna Chixaro Ramos é uma escritora do Rio de Janeiro que já viveu em três continentes. Escreve sobre viagens, cultura e a evolução do turismo responsável. Agora a viver no Porto, a Lucianna orienta workshops e retiros de escrita criativa pensados para ajudar quem escreve a abrandar e a reencontrar-se com o seu trabalho.

Onde ficar no Alentejo (para lá dos hotéis tradicionais)

Se estás a pensar onde ficar no Alentejo, as opções dividem-se normalmente em duas: hotéis tradicionais e casas de hóspedes mais pequenas. A diferença não está só no preço, mas em toda a experiência. É ela que define o tipo de viagem que acabas por ter.

Os melhores hotéis no Alentejo: o que esperar

Muitos dos melhores hotéis do Alentejo oferecem o conforto que os viajantes já conhecem bem: quartos privados, um serviço previsível e uma estadia mais padronizada. Para visitas curtas, isso pode ser apelativo. Mas os hotéis nem sempre oferecem grande ligação ao ritmo da vida local. Se queres conhecer a região como quem lá vive, outras opções de alojamento podem fazer mais sentido.

Casas de hóspedes e estadias slow living: uma abordagem diferente

As casas de hóspedes funcionam de outra maneira. Costumam ser mais pequenas, mais pessoais e mais enraizadas no sítio onde estão. Num lugar como o Alentejo, isso pode significar espaços partilhados, anfitriões com uma ligação profunda à região e uma hospitalidade guiada menos pela eficiência e mais pelo ambiente. Se procuras os melhores sítios para ficar em Portugal perto da praia, este tipo de estadia pode ficar-te na memória muito mais do que um hotel convencional.

Perguntas frequentes

Onde fica o Alentejo?

O Alentejo é uma região do sul de Portugal, entre Lisboa e o Algarve. Estende-se das planícies do interior até à costa atlântica, onde terras como Sines e Porto Covo têm algumas das praias menos cheias do país. Conhecido pelo ritmo de vida mais lento, o Alentejo é muitas vezes associado a paisagens rurais, pequenas aldeias e uma forte ligação às tradições locais.

Sines é um bom destino para férias de praia?

Sim. Se procuras algo menos construído do que o Algarve, Sines é um dos melhores sítios para ficar em Portugal perto da praia. A costa é conhecida pelas praias largas e pouco cheias, como a Praia Vasco da Gama, pelas boas ondas e por um ambiente mais local. É especialmente apelativa para quem quer natureza e espaço em vez de turismo de resort.

Quais são os melhores sítios para ficar no Alentejo?

Depende do tipo de experiência que procuras. Os hotéis boutique oferecem conforto e design cuidado, mas podem ser mais formais e menos pessoais. As quintas e herdades são tranquilas e bonitas, mas muitas vezes ficam demasiado isoladas para quem quer experiências culturais, como museus. Se te interessam experiências mais imersivas, casas de hóspedes como a Manas Slowliving oferecem estadias mais pessoais, centradas na cultura local e no slow living.

Qual é a melhor altura para visitar Sines e o Alentejo?

Depende das tuas prioridades. A primavera traz tempo ameno e menos gente, enquanto o verão é mais movimentado, mas é a melhor altura para aproveitar as praias. No outono, vais encontrar um ambiente mais sossegado. Para um equilíbrio entre bom tempo e menos turistas, o fim da primavera e o início do outono costumam ser as melhores alturas.

Que tipos de reserva oferece a Manas Slowliving?

A Manas Slowliving oferece diferentes tipos de estadia no Alentejo, conforme a forma como queres viver o espaço. Tanto a Casa de Sines como a Casa de Santiago podem ser reservadas por inteiro, o que as torna uma ótima escolha para uma viagem em família ou uma estadia de team building. A casa também está disponível para receber retiros, workshops e residências criativas. Para saberes mais, visita a página de retiros da Manas Slowliving.